O jornalista Guilherme Rocha, paciente de melanoma, conta sua história
Em um relato carregado de emoção, o jornalista Guilherme Rocha revive sua trajetória de luta contra o melanoma.

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Em um texto carregado de emoção, o jornalista Guilherme Rocha revive sua trajetória de luta contra o melanoma. Confira o seu relato:

 

“Conheci o Instituto Melanoma Brasil no ótimo caderno Seminários Folha sobre o assunto, publicado pela Folha de S.Paulo a 5 de dezembro do ano passado, intitulado “Era só uma pinta”. A Brunna Rolim, assistente administrativa, entrou em contato me perguntando se poderia escrever este “editorial”.

Vai ficar um pouco grande, mas vamos lá. E carregado de emoção, pois vou reviver a maior parte do que aconteceu comigo nestes quase sete anos de melanoma.

Começo de tudo

Nunca tinha ouvido falar do melanoma. Nem imaginava se era um pedaço de bolo, um frango assado bem quentinho ou uma nova onda de cabelos longos e calças apertadas… Não havíamos sido apresentados, trocado um abraço, uma carta, nada. E isso aconteceu de maneira trágica, quase fatal, que muito (mal) me impressionou, e que não desejo para ninguém, nem para um bom adversário, se é que tenho.

Havia um grupo de corridas em São Paulo, intitulado “Equipe Branca” (seu coordenador era apelidado de Branca). Corríamos às terças e quintas, à noite, e aos sábados pela manhã na USP. Cheguei a participar de quatro São Silvestre, completando todas (mais ou menos a uns… nem me lembro, mas talvez a uns 12km dos quenianos…).

Nunca me preocupei com protetor solar, apesar de sempre ser avisado. Corria sem boné, sem camisa UV, corajoso que só…

Mas estamos no meio de 2014, junho. Da capital nos mudamos para Piracaia, no interior do Estado de São Paulo.

Bem. Eu, Sonia – minha mulher, e dois filhos – João Vítor, com 18, e Luís Henrique, com 15, morávamos em uma agradabilíssima Ecovila, na cidade de Piracaia, a 20km de Atibaia e a cerca de 100km da capital, São Paulo.

Grande amor

Quando conheci a Sonia, assim mesmo, sem acento, em 2000, e merece ser contada essa passagem, eu trabalhava na assessoria de imprensa da CUT nacional, e ela, advogada, trabalhava duas ruas depois, em outro projeto da mesma CUT. Nunca a tinha visto na vida, mas certo dia a observei almoçando na rua que fazia “divisa” entre a minha e a dela.

Morenaça linda, charmosa, toda elegante, realmente uma gata…

Fiquei encantado. E ela almoçando com pessoas que também nunca tinha visto. Dois dias depois novamente a vi almoçando, no mesmo restaurante, com a Bárbara, que havia sido secretária da CUT.

– Opa, ela conhece a Bárbara… Já é um bom sinal.

Encontrei a Bárbara alguns dias depois e perguntei sobre a moça bonita, morena:

– Ah, é a Carmem, minha amiga bailarina…

– Bailarina, Bárbara…?!

– É, muita gente perguntou…

– Não quero ser chato, Bárbara, mas se conheço um pouquinho de balé ela não tem jeito de ser bailarina…

Pensou, pensou…

– Ah, é a Sonia, minha amiga querida. Olha, e é de família, não é pro seu bico…!

Fiquei danado da vida. E eu não seria de família também…?

Rimos os dois. Na tarde do mesmo dia, a Bárbara me telefona:

– Eita, fui fazer propaganda, agora quer conhecer você…

Começamos a namorar, um namoro forte, amigo, companheiro… E nos casamos no ano seguinte, já com a presença do João Vítor, tinha seis meses…

Fiz questão de contar essa passagem porque começava ali uma união maravilhosa, que se estende faz 20 anos… Tenho a honra de ser marido dela há 18 anos.

E sem Sonia, juro!, não estaria aqui escrevendo… De jeito nenhum…!

Passamos seis anos em Piracaia antes de vir aqui para Juiz de Fora.

Primeira cirurgia

Em abril de 2014, na Ecovila, penteando o cabelo na sala de casa, percebi que o pente “agarrara” em algo. Perguntei a ela, sentado na cama.

– Não sei direito, mas é bom ver.

Como à época tínhamos um plano de saúde (que depois nos avacalhou muito a vida, contarei mais adiante), fui a um cirurgião-plástico em São Paulo, que retirou a “coisa feia” e a mandou imediatamente à biópsia.

Resultado em mãos, 15 dias depois me disse que sua “função terminava ali”, e me encaminhou a um oncologista do Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), na avenida Angélica, região central de SP.

Fui. O médico, Ricardo Antunes, olhou o laudo e sentenciou:

– Guilherme, há três tipos de câncer: o pug, pequenino, que mal nenhum faz; depois vem o vira-latas, maior. E o pitbull, agressivo, desses bravos. O seu melanoma é um pitbull. E é metastático.

Eram 18h de um dia qualquer. Sonia ao meu lado. Olhei para baixo, vi o Japão, japonesas e japoneses passeando em uma Tóquio florida… Um buraco enorme!

 

Amansar o pitbull

– Mas calma, há pitbulls que podem se tornar mansos, não precisamos nos desesperar…

O médico tentava me ajudar.

– Qual é o meu próximo passo…?

A voz embargada, consegui dizer isso.

– Você vai fazer tomografia do restante do corpo. E depressa, porque o seu é para baixo, mais difícil.

Nunca entendi o que quis dizer com “para baixo”, mas nem precisava. Telefonei para uma clínica, marquei para o dia seguinte.

Voltamos a Piracaia e regressamos para os exames.

Exames prontos, voltei ao médico, dessa vez sozinho.

Os resultados

Aqui há outra passagem que merece ser contada. O motoboy da clínica afirmara que às 17h estaria no prédio, na Angélica, para entregar os exames.

17h, 17h30, 18h, 18h30, nada de motoboy, imaginem a minha aflição. Saía e entrava no prédio a cada cinco minutos… A Angélica cheia de carros, gente, motos, e nada do motoboy.

Como os consultórios ficam em salas apertadas, espera-se em um prédio vizinho. As secretárias se comunicam, e os pacientes podem subir, saindo de um prédio e indo para o outro.

Alguém avisou ao médico sobre o que estava acontecendo comigo. E ele mandou um recado: “Digam ao Guilherme que esperarei aqui até o momento em que esses exames chegarem, pode ficar tranquilo e tomar um café…”

Lembrando dessa cena, tanto tempo depois, volto a ficar com os olhos cheios de água. Foi maravilhoso ouvir aquilo. Ele, em poucas palavras, me fez sorrir. Tão marcante esse gesto que duas semanas depois, chegando ao Tietê, vindo de Piracaia, entrei em uma livraria e comprei um livro cujo título era, creio, “Sou Flamengo desde criança”. Sabia que era flamenguista. E um botafoguense como eu ter essa atitude revelava-se realmente impressionante…

– Você bebe, Guilherme?

Os exames chegaram lá pelas 19h…

Logo me chamou e fez a pergunta:

– Não dispenso uma cervejinha, mas só.

– Pois então hoje é dia de você beber bem. Os exames não deram nada…!

Olhei novamente para baixo, o buraco do Japão, de dias atrás, começava a se fechar.

– Mas vou operar, tenho que raspar esse melanoma que está aí em sua cabeça.

Primeira cirurgia

Marcou para 26 de junho de 2014, no Hospital Bandeirantes, na Liberdade.

Saí dois dias depois, aparentemente sem sequelas.

Fiz imunoterapia no IPC também, uns 20 dias, todos os dias. Ia e voltava de Piracaia. Cansado, mas preferia isso a ter que dormir em São Paulo. Os meninos pequenos, saudade da Sonia… Não precisei da químio e rádio.

No início do ano seguinte, 2015, achei que deveria fazer uma cirurgia bariátrica, pois nada me emagrecia.

Ainda com o convênio, fiz os exames todos. E os levei ao médico Hézio Cordeiro, no mesmo Instituto Paulista de Cancerologia.

Ele os olhou detidamente.

E me perguntou:

– Guilherme, você não sente dor de cabeça?

Ah, meu Deus, de novo se abriria o buraco em direção ao Japão…?!

– É, procure um médico, estou vendo algo aqui… E tente um neurocirurgião.

Aí encontrei um ser humano desses moldados por Deus…

O médico Paulo Roberto Napoli, também sem acento, se pronuncia Nápoli.

Ele atende no Hospital Novo Atibaia e é médico de neurocirurgia no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera, zona leste de São Paulo.

De uma simplicidade impressionante, passou a nos atender com dedicação, carinho, competência. Humano, hu-ma-no…!

Segunda cirurgia

Fomos até ele em Atibaia, Sonia resolvendo todos os problemas, acertando a vida, cuidando dos meninos. E aqui entra outra pessoa: dona Conceição Salgado, minha inestimável mãe.

Viúva, apaixonada pelos dois netos, ia conosco aonde resolvêssemos morar. Hoje tem 86 anos, firme e forte, gosta de uma cachacinha na hora do almoço. Mantém-se isolada, em seu apartamento, aqui mesmo em Juiz de Fora, distante de qualquer Covid que a ameace.

E entram ainda os familiares e amigos. Nesse tempo percebi como todos nós somos amados. Há fatos inesquecíveis! Como quando nosso carro, dirigido pela Sonia, quebrou a uns 15km do centro de Piracaia. Daí a pouco chegaram dois amigos da cidade, levando o carro para um mecânico. Não quiseram nunca receber os R$ 1 mil do conserto…

A família não media distância: daqui, do Rio, de Belo Horizonte, de Vitória, todos se viravam e iam até lá ficar com a dona Conceição, no tempo dessas internações.

Fui operado pela segunda vez em abril de 2015, no Hospital Santa Marcelina.

Depois dessa segunda, encontrei outro anjo da guarda (como estamos repletos deles, e às vezes nem nos damos conta, meu Deus!). Chama-se Israel Dantas, funcionário da DrogaGil, uma boa farmácia de Piracaia. Durante seis meses tomei duas injeções diárias no abdômen, cedidas pelo IPC. E ele NUNCA quis me cobrar um centavo pelas aplicações. NUNCA. Estou quase chorando de novo…

A operadora de saúde

Nesse tempo, agosto de 2015, recebemos uma carta da nossa operadora de saúde cancelando unilateralmente o convênio. Sem uma palavra que explicasse a iniciativa ridícula, idiota e desumana. Sabiam, certamente, que estava usando tudo o que convênio me oferecia – as cirurgias e os tratamentos paralelos, tudo.

Decidiram desse modo. Eu e Sonia fomos à sede da operadora, atrás do MASP, na avenida Paulista. Conversamos com diversas atendentes, nunca nos deram uma explicação plausível.

 Corri para o SUS, santo SUS…!

Com o cartão em mãos, tive o mesmo atendimento daquele tempo todo.

Certo dia, ainda na Ecovila, seis meses depois da segunda cirurgia, percebi que estava perdendo o movimento do lado direito do corpo, inclusive o raciocínio e a fala. Horrível.

Voltamos a Atibaia.

Terceira cirurgia

O mesmo Paulo Napoli nos atendeu. E logo notou as minhas dificuldades. Encaminhou-me novamente ao Santa Marcelina.

Eram 22h de 25 de outubro de 2015, aniversário da Sonia. Passei uma noite em uma espécie de “grande salão dos que não tinham convênio”, em meio a macas, cadeiras, sangue… Muito doloroso.

A Sonia procurou Rose Moraes, amiga desde o Projeto Integração (aquele da CUT, de anos atrás), que morava perto do hospital e a acolheu com uma dedicação total, chegando a ir me visitar no hospital.

Fui operado pela terceira vez no dia 30 de outubro de 2015.

Continuei sendo acompanhado, agora pelo SUS, no Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), um prédio enorme, na avenida Doutor Arnaldo.

 Decidimos vir

A nossa situação financeira estava muito ruim. Aperto atrás de aperto, um tanto de dívidas (dois primos, Lúcio e Marialva, nos emprestaram R$ 10 mi cada um), cartão de crédito vencendo dia 15…

 Vendo tudo isso, e Piracaia, com 26 mil habitantes e cerca de 300 advogados, não possibilitava nada mais do que já havíamos tentado.

Viemos para Juiz de Fora. Continuo sendo acompanhado no Hospital 9 de Julho, pelo SUS. Duas médicas excelentes – Daniela Gros e Ana Cláudia Daibert, sempre atenciosas, competentíssimas.

Sou muito claro, quase alemão, e tive um segundo câncer, um carcinoma, no braço direito. Foi retirado por outra médica, tudo normal.

Ando de luvas até o final do braço, óculos escuros, chapéu e muito, mas muito protetor solar…!

E me mantenho na máxima: “protejo a minha pele”.

 

Aposentadoria e curso de Direito

Para não parecer que houve somente sofrimentos, depois de 40 anos formado em jornalismo, sempre trabalhando com revisão, saiu a minha aposentadoria. E decidi tentar o curso de Direito, um sonho antigo. Passei, fui para o 3º período em uma faculdade (Doctum) aqui perto de casa. Sonia, maravilhosa Sonia, parceiraça, está advogando, agora também para o Instituto Maria da Penha, em defesa das mulheres vítimas de violência doméstica.

Felizes, mas me cuidando…!”

 

 

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