Eu senti na pele – Mariana Côrtes

A vida de Mariana Cortês nunca foi fácil. Aos 30 anos luta contra um melanoma, que se manifestou a partir de uma pinta de nascença no braço direito, logo abaixo do ombro. Isso foi há oito anos, quando estava grávida de sua única filha. O sinal começou a crescer junto com o aumento de peso comum da gestação e, por conta disso, Mariana não se preocupou. Já em 2014, três anos após dar a luz, a pinta voltou a se modificar, ficando mais escura e até sangrar. Desde então, foram diversos tratamentos, momentos muito delicados e até uma parada cardíaca, mas Mariana não baixa a cabeça e com muita fé trilha seu caminho. Fique agora com sua emocionante história:

“Era dezembro de 2016 e pela primeira vez minha cidade organizava um evento voltado ao Dezembro Laranja. Passei por um dermatologista, que ao me examinar disse que aquela minha pinta era um câncer de pele. Imediatamente, ele me alertou de que meu estágio já estaria bem avançado e disse que eu precisaria operar. Nem preciso dizer como me senti e que daquele momento em diante minha vida nunca mais foi a mesma. Dois dias depois, passei por consulta no hospital da minha cidade, em Nova Friburgo (RJ), para fazer uma biopsia. Chegando lá, os médicos disseram que não poderiam mexer e, novamente, fui encaminhada para um outro local, desta vez, o Hospital Nacional do Câncer José de Alencar (INCA – Hospital do Câncer), que fica no Rio de Janeiro. Eu não tinha e não tenho convênio e eles foram bem ágeis. Na mesma semana, voltei para o Rio para uma biopsia que deveria ser feita em caráter de emergência. Ao fazer o procedimento, tive uma parada cardíaca, mas graças a Deus, fui reanimada. E o resultado que levaria uns dois meses pra sair, devido a urgência do caso, saiu na semana seguinte e o resultado: Melanoma Maligno Ulcerado Metastático.  

Depois de receber a notícia, ainda fiz Ampliação de Margem, Pesquisa de Linfonodos Positiva e partimos para o Esvaziamento Axilar. E um novo diagnóstico: Melanoma Clark III Breslow 2,5 Ulcerado Metastático. Nesta época, ainda estava casada com o pai da minha filha, e precisaria de uma intervenção com o medicamento Interferon. Fiz o tratamento por um ano e meio, eram injeções na barriga três vezes por semana, totalizando nove. Passado meio ano de tratamento, um nódulo, do tamanho de um grão de arroz, surgiu no meu seio direito. E mais uma vez, meu mundo caiu.

A metástase do seio doía muito e seu tamanho quadriplicou de tamanho em três meses, ficando do tamanho de uma laranja. Não tínhamos mais o que fazer, isso foi em dezembro, e passei por uma mastectomia do seio completa.  Parei com a medicação, pois não fazia mais efeito. E partirmos para um novo tratamento.

Mas as surpresas não pararam de acontecer. Logo após a mastectomia, um novo tumor surgiu no meu braço. Logo abaixo da primeira cirurgia feita. Eu, apesar de todo medo, me mantive com muita fé. Além do novo tumor no braço, a cirurgia no peito desenvolveu uma fibrose. E após ela, novas metástases, no braço.

Tudo acontecia muito rápido. E devido o meu estado, o INCA me inseriu em um protocolo de pesquisa em que teria duas opções de tratamento, uma vacina ou mais uma cirurgia. A escolha não dependia de mim, nem do médico, foi sorteio e lá fui eu parar na sala cirúrgica.

Passado tudo isso, fui passear em Angra dos Reis. Era agosto de 2017. Já na volta para casa, descobri novos tumores subcutâneos. Desta vez na cabeça, pescoço, ombro e bumbum. Retornei ao médico e após alguns exames a surpresa… seis tumores no peritônio e mais outros subcutâneos.

Nessa altura, o INCA já não tinha mais o que fazer por mim. Nisso, com muito sacrifício, consegui entrar para um Protocolo de Pesquisa do Instituto COI, também na capital do Rio de Janeiro. Fui encaminhada, por um médico que já conhecia meu histórico. Mas a doença não parava de avançar. Em dois meses, de seis metástases, fui para 15. Começamos um novo tratamento, com Cobimetinibe e Vemurafenibe, mais as injeções de Atezolizumab. Eu reagi bem, em três dias os tumores foram diminuindo. Em três meses, não tinha mais um tumor. Foi uma festa!

Recebi o diagnóstico de cura, mas ainda teria que seguir com o tratamento de manutenção. Apesar dos benefícios obtidos, os efeitos colaterais eram horríveis. Tive alopecia, fibromialgia medicamentosa urticária. Mas não reclamava, estava muito feliz por ter vencido o câncer. Isso foi em setembro de 2017 e, em julho do ano seguinte, os medicamentos pararam de fazer efeito e fui retirada da pesquisa. Fiquei sem chão, pois naquele momento não tinha nenhuma outra pesquisa ou tratamento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). E os tumores começaram a voltar, primeiro no baço, depois para a mama esquerda, para os pulmões, rins, fígado, novamente no peritônio e chegando na minha cabeça.

Em quatro meses, passei por cinco internações para controlar as dores. Neste período, não comia, fiquei muito confusa mentalmente e cheguei a ficar sem falar por uma semana. Ali senti que seria meu fim. Meu médico queria optar pela quimioterapia convencional, mas me neguei. Cheguei no estágio terminal da doença e achava que a quimioterapia ia acabar de me matar. Perguntei quais seriam minhas chances de cura e a resposta foi: 20%.

Eu só queria continuar viva. E implorei para o médico me dar outra opção de tratamento. Foi quando ele me aconselhou a correr atrás do Pembrolizumab. Entrei na justiça, mas o tempo ia passando e eu só piorava. Fui parar no Hospital do INCA, desta vez em outra unidade, da Cruz Vermelha, onde me encaminharam para o Instituto Estadual do Cérebro (IEC). Lá fiz uma radiocirurgia muito traumática, sendo uma das piores situações que já tinha passado. Porém, os tumores da cabeça foram eliminados.

Hoje, continuo tomando o Pembrolizumab, mas com ele os tumores do baço, pescoço e outro tumor bem grande nas minhas costas não respondiam a medicação. Bem, a opção era continuar lutando. Em fevereiro deste ano, fiz uma radioterapia neste tumor das costas, que doía muito, e graças a Deus, os resultados foram bons.

Apesar de todo o sofrimento causado pela doença e por problemas pessoais, eu não desisto. Tenho muita fé em Deus e tenho muitos sonhos. Um deles é visitar o Cristo Redentor e viver feliz ao lado da minha filha e do meu namorado, que é excelente para mim. As idas e voltas do câncer cansam, cansam muito. Atualmente, tenho um pouco mais de qualidade de vida emocional. Mas eu não vou desistir jamais!”.

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