Entrevista – Dra. Marina Sahade fala sobre metástases

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Mais de 90% das mortes por câncer são causadas por metástase. Até pouco tempo atrás, o problema parecia tão aterrorizante, que a ciência não ousava enfrentar. Porém, nos últimos anos, vislumbra-se a possibilidade de passar a algo crônico, mas não letal. Conversamos com Marina Sahade, oncologista clínica e membro do Conselho Consultivo do Instituto Melanoma Brasil, a sobre o assunto. Confira abaixo: 

Melanoma Brasil: Há 15 anos, a metástase era algo que a ciência mal se atrevia a enfrentar. Mesmo estimando que mais de 90% das mortes por câncer são causadas por metástases, existe a possibilidade de a metástase ser algo crônico, mas não letal?

Marina Sahade: Sim, com certeza. A oncologia vem passando por uma grande evolução nos últimos anos, e hoje ter doença metastática vem deixando de ser uma sentença, passa a significar conviver com uma doença crônica. Muitos pacientes conseguem se manter com a doença controlada por vários anos, muitas vezes inclusive sem apresentarem sintomas do próprio câncer. O ponto importante é que o paciente com doença metastática sempre precisa estar em acompanhamento, fazendo exames de imagem periodicamente (mesmo aqueles assintomáticos) e mantendo seguimento com seus médicos, para os quais sempre deve comunicar o surgimento de qualquer sinal ou sintoma novo.

Melanoma Brasil: Como se dá o processo de metástase?

Marina Sahade: As células do câncer caminham pela corrente linfática e pela circulação sanguínea. Desta forma, conseguem se alojar em locais distantes de onde nasceu o tumor primário. Em algumas situações, as células do câncer podem ficar “dormindo” por alguns anos, até que em um determinado momento voltam a se proliferar, crescer e se multiplicar. Muitas vezes uma nova biópsia é necessária para termos certeza de que aquela metástase continua com as mesmas características do tumor inicial, ou seja, para confirmar se o “nome e o sobrenome” do câncer continuam os mesmos, o que vai ser de fundamental importância para definir o melhor tratamento.

Melanoma Brasil: Por que somente alguns pacientes desenvolvem metástases?

Marina Sahade: Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Infelizmente ainda não dispomos de armas precisas para prever a evolução de cada caso. Podemos observar, por exemplo, tumores muito agressivos que nunca evoluem com metástase, mas também tumores muito iniciais nos quais a doença retorna. Por esse motivo, justamente, que o acompanhamento após o tratamento inicial é tão importante. Pois, caso a metástase de fato apareça, é muito importante que seja detectada o mais precocemente possível, a fim de melhorar as chances de controle com o tratamento. 

Melanoma Brasil: Existe algum tipo de tratamento que seja mais eficaz no combate às metástases?

Marina Sahade: O tratamento para metástase, sobretudo no melanoma, deve sempre ser discutido de forma multidisciplinar. A decisão do melhor caminho, muitas vezes, envolve o oncologista, o cirurgião, o radioterapeuta, o dermatologista, o patologista, o radiologista e, claro, o próprio paciente e seus familiares. A situação particular de cada pessoa sempre tem que ser levada em consideração, como os outros problemas de saúde, outras medicações em uso, e se apresenta ou não sintomas do câncer ou complicações da doença.

Melanoma Brasil: O Brasil conta com estudos sobre este tema?

Marina Sahade: Sim, cada vez mais o Brasil vem sendo envolvido nos grandes estudos internacionais de novas drogas. Muitos centros brasileiros também têm desenvolvido suas próprias pesquisas institucionais com reconhecimento internacional. Mas, infelizmente, a cultura de participar de pesquisa clínica ainda não faz parte da rotina dos nossos pacientes, e muitos serviços e cidades ainda não dispõem desta opção. Participar de estudos é uma excelente forma de ter acesso à novas terapias, além de contribuir para a evolução da ciência. Sempre verifique com seu médico se existe algum estudo clínico na sua cidade para o qual você possa ser um candidato.

Melanoma Brasil: No caso dos pacientes de melanoma, em quais órgãos a metástase é mais comum?

Marina Sahade: O melanoma metastático pode acometer a própria pele, com implantes dérmicos e nódulos subcutâneos, embaixo da pele, assim como os gânglios linfáticos (linfonodos). Os órgãos também podem ser acometidos pelas metástases, como pulmão, fígado, ossos, estômago e intestino, além do sistema nervoso central (cérebro e meninge).

Melanoma Brasil: Como é o tratamento para metástases em pacientes com melanoma? Ele tem obtido bons resultados?

Marina Sahade: O tratamento do melanoma metastático sofreu uma grande revolução nos últimos 10 anos. Partimos de um cenário em que tínhamos poucas opções, contando apenas com quimioterapias de pouca eficácia e muitos efeitos colaterais, para um cenário de novas drogas que aumentaram radicalmente o tempo de vida dos pacientes. A imunoterapia com certeza foi o grande marco desta revolução e pode ser usada como agente único ou em combinação de dois imunoterápicos. Temos também as terapias alvo, para pacientes portadores de mutações de BRAF.

Melanoma Brasil: Aliado a alimentação/dieta, existe algo que o paciente pode fazer para evitar o surgimento de metástases?

Marina Sahade: Manter-se saudável com certeza ajuda na luta pela cura. Isso inclui uma alimentação balanceada (evitando alimentos processados e artificias), prática de atividades físicas, evitar o consumo de álcool e cigarro, bem como, cuidar da mente em busca de um sistema imune equilibrado e uma boa saúde.

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