Eu senti na pele – Juliana Moro

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Em 18 de novembro de 2019, nos despedimos da Juliana Moro, nossa querida Vice-Presidente. Após 36 de alegria de viver, comprometimento e amor ao próximo, ela descansou.

Para mostrar quem era essa pessoa tão especial, ninguém melhor do que a própria Juliana.  Compartilhamos abaixo o depoimento que ela concedeu ao site da revista Glamour no ano passado, no qual generosamente compartilha sua trajetória. Para ler, reler e não esquecer jamais.

 

Com 10 metástases no cérebro, minha luta é alertar sobre o câncer de pele*

Se você nunca ouviu falar, o melanoma cutâneo é um dos tipos mais graves de câncer de pele e o mais frequente no Brasil. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, o INCA, a estimativa é que 6.260 brasileiros sejam diagnosticados com a doença ainda neste ano, sendo 2.920 homens e 3.340 mulheres.

Juliana Moro Pires, de 35 anos, é uma das vítimas do melanoma e luta contra o câncer com metástases desde 2013. Hoje, após muitos altos e baixos, dedica sua vida à Maria Clara, sua filha, e ao Melanoma Brasil, instituição sem fins lucrativos de apoio e informação. Abaixo, ela compartilha sua história:

 “O momento mais incrível da minha vida foi, também, o mais complicado. Isso porque, em dezembro de 2013, aos 30 anos e grávida de 6 meses da Maria Clara, minha primeira filha, fui diagnosticada com melanoma, o tipo mais grave de câncer de pele. E sabe como foi que eu o descobri? 

Foi assim: dois meses antes, já gravidinha de 4 meses, enquanto fazia um rabo de cavalo no meu cabelo, senti um carocinho na cabeça. Parecia muito com uma espinha e tinha até a cor avermelhada. Passei uma pomada e sumiu. Mas, dias depois, ela apareceu novamente e começou a coçar. Obviamente, achei que não era nada e continuei com a pomada. Só me convenci de que era a hora de procurar uma dermatologista, quando já não suportava mais a coceira. Eu coçava tanto, tanto, que até sangrava.

O carocinho não era feio, tanto que a própria dermatologista o diagnosticou como verruga, embora tenha pedido uma biopsia para sanar qualquer pulga atrás da orelha. Fui para casa tranquila, mas, um mês depois, com o resultado do exame em mãos, meu mundo desmoronou!

O DIAGNÓSTICO: CÂNCER
Saber que eu tinha um câncer com uma neném da barriga foi tão amedrontador, que é difícil até de explicar. Fui encaminhada para um hospital referência, o A.C Camargo, em São Paulo, sem saber direito o que – de fato – significava tudo aquilo. Lá, fiz um batalhão de exames e refiz a biópsia. Infelizmente, o resultado era o mesmo: melanoma.

Dias depois da segunda confirmação, me vi com três médicos (obstetra, dermatologista e cirurgião) trabalhando em uma dúvida em comum: fazer a retirada do tumor com ou sem a Maria no meu ventre.

Como vocês já devem imaginar, minha decisão foi aguardar e esperar a Maria nascer. Assim que ela completou 8 meses, em fevereiro de 2014, eu fiz a cesárea. Felizmente, ela nasceu bem, apesar de um probleminha respiratório que a deixou em observação na UTI por uma semana. Me lembro como se fosse ontem: ora eu estava com ela na UTI, ora eu fazia os exames pré-operatórios. No dia 13 de fevereiro, quando ela teve alta, eu entrei no centro cirúrgico – com a cabeça 100% raspada – para tirar o melanoma.

A alta veio cedo, logo no dia seguinte.  Mas a sensibilidade e as dores demoraram para passar… Só quem já fez algum procedimento na cabeça, entende bem a aflição que dá ter um corte no couro cabeludo.

Dias após a cirurgia, tinha minha primeira consulta com o oncologista. Parei de amamentar para fazer um tratamento preventivo, a tal imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a identificar qualquer ação das células cancerígenas, ajudando o corpo a combatê-las. No primeiro mês, fui ao hospital tomar essa medicação todos os dias. Depois, o tratamento virou foi para três vezes na semana. Apesar de preventivo, os efeitos colaterais eram pesados. Eu tive de tudo: febre, enjoo, dores no corpo inteiro… Foi, sem dúvida, o pior tratamento que já fiz. Mesmo assim, aguentei cinco meses – eram para ter sido 12. Me sentir tão mal, me impediu, também, de cuidar da minha bebê, o que me deixava ainda mais triste.

E AS METÁSTASES SURGIRAM
Completos cinco meses de tratamento, refiz os exames e nenhum câncer foi diagnosticado. Parei o tratamento e tive paz até o fim daquele ano, 2014, quando em um dia qualquer, notei sangue nas minhas fezes.

Corri apavorada para o meu médico que fez mil e um exames. Todos mostraram aquilo que eu mais temia: metástases no osso da bacia e no intestino. Imediatamente, comecei outro tratamento de imunoterapia – a tradicional quimio, geralmente, não é tão eficaz para o melanoma. Seriam quatro doses aplicados na veia, uma vez ao mês.

Contudo, o pior ainda estava por vir: a cada dose tomada, outras metástases apareciam ou, as já existentes, aumentavam de tamanho. Não, o tratamento não estava dando certo. Terminei 2015 com quase 10 metástases no corpo, incluindo tumores nos ossos do pescoço, ombro, coluna e pernas.

Completamente perdida e sem esperanças, meu médico me convenceu a iniciar uma nova imunoterapia, com um medicamento ainda em estudo. O fiz por mais seis meses, com doses mensais. Porém, já em 2016, tudo estava pior: eu tinha 21 tumores espalhados pelo corpo.
Naquele momento perdi as esperanças realmente e vivi o pior momento da minha luta contra o câncer. Estava chateada com o mundo e comigo mesma, e embora não pensasse que fosse morrer naquele momento, já me preparava para meus últimos dias de vida. Sem falar da ansiedade. Nossa, era tanta, tanta ansiedade, que nem meus medicamentos e terapias com psiquiatra eram capazes de amenizar.

O próximo passo foi apostar na quimioterapia tradicional. Foram mais seis meses de quimio, o que me deixou muito debilitada – só quem já passou por sessões, ou viu alguém da família fazer, entende a gravidade dos efeitos colaterais. Além dos cabelos e todos os pelos do corpo, perdi 12 quilos.

Entretanto, um milagre aconteceu ali – sim, acredito muuuuito que tenha sido um milagre: 13 tumores haviam sumido e todos os outros tinham diminuído de tamanho. Que vitória! O próximo passo foi continuar o tratamento com a terapia alvo, comprimidos que tomamos em casa para bloquear o crescimento e a disseminação das células cancerígenas.
Hoje, não tenho nenhum tumor do pescoço para baixo, mas dez ainda continuam na minha cabeça. Sim, ainda não estou curada do câncer – ainda! Com elas, vou levando, fazendo radio cirurgias apenas quando elas aumentam de tamanho.  

Eu sei, é difícil imaginar como eu posso viver a vida com dez tumores na cabeça. Minha saída é sempre dizer que estou ótima. Quando você tem um diagnóstico desses, não dá para focar na possibilidade da morte, sabe? O foco tem que ser na vida – e isso é o que a doença me ensina todos os dias.

MELANOMA BRASIL
Neste meio termo, a organização Melanoma Brasil apareceu na minha vida – o que foi muito reconfortante. Lá em 2013, quando fui diagnosticada, criei uma página pessoal no Facebook, a ‘Um Melanoma em Minha Vida’, unicamente para deixar amigos e familiares informados. Carinhosamente, todos queriam saber como eu e Maria, recém-nascida, estávamos, mas eu nunca tinha vontade de falar… Hoje, minha página tem mais de 2.500 pessoas me acompanhando e me ajudando na luta contra o câncer.

Bem, foi por causa da minha página que conheci a Rebecca Montanheiro, fundadora do Melanoma Brasil. Ela também lutava contra o melanoma e ficamos muito amigas. Em 2015, fui convidada por ela para assumir a vice-presidência do instituto que cresceu super!
Hoje, o Melanoma Brasil tem, resumidamente, dois braços: 1) levamos informações da doença para a população em geral, alertando-a sobre a prevenção do câncer de pele, e 2) damos suporte aos doentes de várias regiões do País, que tem dúvidas sanadas por médicos que participam do nosso grupo. Nossos encontros e bate-papos são on-line, em um grupo fechado no Facebook.

Enfim, toda essa rede de apoio também me ajuda na luta contra o câncer. Todas as vezes que recebo uma notícia ruim, como o tumor que aumentou ou o tratamento que não funcionou, olho para o presente e penso: ‘sim, ganhei mais um dia!’. E a vida é isso, não é mesmo? É o hoje e não o amanhã! Por isso, temos que fazer o agora valer a pena e aproveitar cada momento”.

*Texto originalmente publicado no site da revista Glamour

 

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