Melanoma na vulva: a história de Jane e seus três diagnósticos

Jane Carvalho, paciente de melanoma vulvar, segurando uma flor

Melanoma na vulva: “Eu não sabia o que era melanoma. Hoje, uso a minha história para fazer com que outras pessoas saibam”

Professora há 33 anos, Jane Carvalho nunca tinha ouvido falar em melanoma até perceber que uma pinta na vulva estava mudando. A investigação levou ao diagnóstico de um tipo raro da doença e deu início a uma história que, anos depois, já inclui três cirurgias. Hoje, ela transforma a própria experiência em informação para outras pessoas.

Sempre tive muitas pintas pelo corpo. Sou, como costumo dizer, uma pessoa “muito pintada”. Tenho pintas no rosto, nas costas, nos pés, de vários tamanhos e aspectos. Mas, até receber meu diagnóstico, nunca imaginei que uma delas pudesse mudar tanto a minha vida.

Meu nome é Jane Cristina Mendes Carvalho, tenho 52 anos. Moro em Capão Bonito, no interior de São Paulo. Trabalhei 33 anos como professora na rede pública e 22 anos no colégio particular Sacre Anglo e 2024 assumi o desafio como sócia-proprietária do colégio.A educação sempre foi uma das grandes paixões da minha vida. Acredito que o conhecimento transforma as pessoas.

Talvez por isso exista uma contradição na minha história que ainda me impressione: mesmo sendo educadora há tantos anos e tendo paixão pelo conhecimento, eu nunca tinha ouvido falar em melanoma. Nem sabia o que era a doença, desconhecia sua gravidade e não imaginava que existisse melanoma na vulva.

Um histórico de exposição ao sol

Quando olho para trás, lembro de uma época em que a relação com o sol era muito diferente. Nos anos 1980, eu fazia de tudo para me bronzear. Ficava no fundo do quintal, passava água com sal, Coca-Cola, óleos e outros produtos na pele. Na praia, ficava horas debaixo do sol. Às vezes, o resultado eram queimaduras intensas, com muitas bolhas.

Além desse hábito de me expor ao sol, eu também sempre tive muitas pintas. Nem passava pela minha cabeça que isso pudessem ser fatores de risco para o melanoma. Aliás, quando eu soube da existência da doença, foi por causa de uma região que nem pegava sol.

A pinta que começou a mudar

Eu já tinha uma pinta na região da vulva quando, em 2021, comecei a perceber que alguma coisa estava diferente. Ela estava aumentando. A cor e o tamanho estavam mudando e aquela pinta começava a se transformar em uma lesão, em uma região naturalmente úmida.

Foi aí que fiz algo que muita gente provavelmente também faria: fui pesquisar na internet. Procurei por termos como “lesão” e “pinta”. Comecei a ler e foi nesse momento que encontrei, pela primeira vez, informações sobre melanoma. Até então, aquela palavra não fazia parte da minha vida.
Em outubro, justamente no dia do meu aniversário de 48 anos, procurei atendimento médico. Depois de avaliar a lesão, uma medica decidiu me encaminhar para um oncologista.

Eu deveria ter seguido imediatamente com a investigação, mas tive medo.

“Não mexe. Quem procura, acha”

Quando cheguei em casa e contei sobre o encaminhamento, ouvi uma frase que traduz uma crença que ainda existe em muitas famílias: era melhor não procurar.
“Não mexe. Quem procura, acha.”

Havia aquela ideia de que descobrir uma doença poderia, de alguma maneira, fazer com que tudo acontecesse mais rápido. Hoje consigo perceber o quanto havia de desinformação nisso. Mas, naquele momento, eu estava assustada e o medo falou muito alto.

Eu pensei na morte. Pensei na minha filha, que estava se formando em Medicina Veterinária. Era um momento tão importante da vida dela e da nossa família, e eu comecei a imaginar que talvez não estivesse presente para viver o que ainda estava por vir.

Parecia que minha casa tinha caído. Que o chão tinha desaparecido.
Guardei aquilo dentro de mim — quase literalmente “dentro do guarda-roupa”, como costumo dizer — e demorei cerca de 30 dias para criar coragem e procurar ajuda. Até que entendi que precisava saber o que estava acontecendo.

A biópsia confirmou o melanoma na vulva

A investigação continuou. Uma prima minha, que é dermatologista em Itapetininga, também participou desse processo. A lesão foi analisada e a biópsia confirmou: era melanoma na vulva.
Após o diagnóstico, fui para um hospital em Jaú para dar continuidade ao tratamento. Foi lá que comecei a compreender que eu era um caso raro; o melanoma vulvar representa menos de 5% de todos os diagnósticos.

Eu, que tinha passado tantos anos pensando em me bronzear, sem conhecer o melanoma, descobria agora uma forma da doença que havia surgido justamente em uma área protegida do sol.
Essa é uma das razões pelas quais hoje insisto tanto em uma mensagem: conheça o seu corpo. O melanoma não aparece apenas nas regiões expostas ao sol. Qualquer mudança merece ser investigada. Se eu não tivesse prestado atenção no meu corpo, não teria descoberto a tempo.

O encontro de uma amiga de pinta

O diagnóstico trouxe muitas perguntas. E foi justamente quando eu mais precisava de informação que encontrei o Instituto Melanoma Brasil nas redes sociais.

Comecei a acompanhar os conteúdos e entrei no Grupo de Apoio e Acolhimento no Facebook. Lá compartilhei o que estava acontecendo comigo e encontrei outras pessoas que conheciam aquela realidade. Uma delas se tornou muito especial. Era uma paciente do Rio Grande do Sul que também havia tido melanoma na vulva. Ela virou minha “amiga de pinta”.

Nós trocávamos experiências, conversávamos sobre coisas que eu ainda não conhecia e ela me ajudava com informações. Rezou muito por mim e me fortaleceu em um momento em que eu estava tentando compreender tudo aquilo que havia acabado de entrar na minha vida. Naquele período, também encontrei outros tipos de apoio: na medicina, na terapia, na minha religiosidade, na minha família e nessa possibilidade de conversar com quem tinha sentido na própria pele o que eu estava vivendo.

“O melanoma na vulva me destruiu e me construiu novamente”

O diagnóstico de melanoma na vulva foi uma experiência assustadora. Costumo dizer que o melanoma me destruiu e me construiu novamente, porque não saí dessa experiência sendo a mesma pessoa que entrou nela. Passei a olhar a vida com outros olhos.

Hoje me observo mais. Cuido da minha pele. Uso protetor solar. Presto atenção ao meu corpo. E faço questão de falar sobre melanoma sempre que posso.

Compartilho as publicações do Instituto Melanoma Brasil, marco minhas amigas, converso sobre a doença e incentivo outras pessoas a se olharem e se cuidarem. Não faço isso porque tenha esquecido o medo que senti. Faço justamente porque me lembro dele. Se eu, professora há mais de três décadas, nunca tinha ouvido falar em melanoma, quantas outras pessoas ainda podem não saber o que é essa doença?

Minha história continuou

Depois daquele diagnóstico, descobri mais dois melanomas, na mesma região. Sou uma mulher rara, como brinca minha médica. Felizmente, todos foram descobertos a tempo e tratados com cirurgia e ampliação de margem. Fiz a biópsia do linfonodo sentinela e a doença não havia se disseminado, não precisei de novas terapias.

Minha última remoção cirúrgica, aliás, foi agora, em setembro de 2026. 

Depois de tantos anos convivendo com o melanoma vulvar, aprendi que não posso controlar tudo. Mas posso fazer aquilo que está ao meu alcance: ter rigor no acompanhamento médico, realizar os exames, seguir as orientações dos profissionais e buscar informação de qualidade. E posso continuar contando minha história, para apoiar outros pacientes e conscientizar as pessoas.

Fé e ciência lado a lado

A fé sempre teve um papel muito importante na minha vida e se tornou ainda mais presente durante o melanoma.

Mas há algo que faço questão de dizer: eu nunca precisei escolher entre a minha fé e a ciência.
Confiei nos médicos, nos exames, nas cirurgias, nos tratamentos e no conhecimento científico. Nunca deixei de procurar a medicina porque acredito em Deus. Para mim, uma coisa não compete com a outra. A minha fé cuidou do meu coração nos momentos em que o medo tomou conta. A ciência cuidou do meu corpo.

Depois de tudo o que vivi, entendi que ter fé não significa fechar os olhos para a realidade. Significa olhar para ela, fazer tudo o que está ao nosso alcance e encontrar sustentação para aquilo que não podemos controlar.

Por isso, para quem está vivendo um diagnóstico de melanoma, minha mensagem é simples: procure ajuda médica, informe-se e siga seu tratamento. E, se a fé fizer parte da sua vida, encontre nela o apoio de que precisar.

De olho nos sinais do corpo

Depois de tudo o que vivi, existe uma mensagem que gostaria que chegasse principalmente a quem nunca ouviu falar sobre a doença: não ignore os sinais do seu corpo.

Eu não conhecia o melanoma. Não sabia reconhecer seus sinais. E jamais imaginei que uma alteração em uma região como a vulva pudesse representar um câncer. Mas, felizmente, prestei atenção aos sinais a tempo e aqui estou contanto meu caso. O melanoma tem grande chance de cura quando descoberto e tratado em estágio iniciais.

Hoje, uso a minha história para tentar fazer com que outras pessoas saibam. Observe seu corpo. Se perceber uma pinta ou lesão mudando de tamanho, cor ou aspecto, ou qualquer outra alteração que chame sua atenção, procure orientação médica. Não deixe o medo te paralisar.

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