Mais da nossa newsletter acaba de chegar e com ela um tema pra lá de especial: Gestação. Quando comecei a escrever sobre o assunto logo pensei, será que tenho preparo e repertório? Afinal de contas, sou mãe de primeira viagem, tenho uma pequenina de apenas quatro anos. Mas uma coisa que acredito ser unânime entre todas as mães: nunca nos sentimos preparadas, da mesma forma que não me senti pronta para escrever esse editorial.

Quando era pequena, pensava que minha vida seguiria o roteiro clássico da época. Encontraria meu “príncipe encantado”, casaria de véu e grinalda, teria um ótimo emprego, casa própria e estrutura financeira, física e psicológica para ser mãe. Claro, a ideia era de ter três filhos, dois cachorros e um gato preto. Porém, a vida real não seguiu esse roteiro, graças a Deus!

A maternidade chegou na minha vida aos 30 anos, já estava casada sim, mas não foi um casamento com véu e grinalda. A casa era alugada, a vida financeira era um caos e trabalhava de domingo a domingo. Não tinha gato e nem cachorro, afinal de contas, mal tinha tempo de cuidar da própria casa, que por sinal só tinha um quarto. No entanto, logo após fazer 30 anos, o exame de sangue confirmou a gravidez! E foi realmente uma enorme emoção!

A barriga e os pensamentos com o futuro cresciam juntos, desde a procura de uma nova casa, a decoração do quarto do bebê, as roupinhas, a busca por uma boa obstetra e aquele clássico sobe e desce emocional. Quando tudo parecia estar em ordem, no 6º mês de gestação eu descobri o câncer melanoma no couro cabeludo.

Me lembro exatamente da expressão da médica, me dando a notícia com um olhar extremamente comovido e colocando em minhas mãos o encaminhamento urgente para um centro oncológico. Como foi difícil e apavorante receber aquela notícia!

As dúvidas sobre as cores do quarto, a escolha da melhor maternidade e lembrancinhas do nascimento da minha filha perderam o lugar para pilhas e pilhas de encaminhamentos médicos, exames e especialidades médicas jamais imaginadas. De um dia para o outro eu não tinha mais opções de parto e nem de vivenciar aquelas clássicas cenas “minha bolsa estourou!”, “O bebê vai nascer!”. A magia da chegada da minha filha estava totalmente planejada e esquematizada no prontuário de pelo menos cinco médicos.

Vivenciar tudo isso foi uma mistura maluca de sentimentos. Mas foi vivenciando esse turbilhão que presenciei meu primeiro “sintoma de mãe”. Os médicos queriam me salvar do câncer e eu só queria que minha filha nascesse saudável. Nada mais importava para mim além da saúde e da segurança dela. E assim seguiu até ouvir aquele choro preguiçoso da minha filha ao sair da minha barriga. Minha principal “meta” havia sido cumprida, consegui dar à luz a minha pequena Maria Clara.

Depois do nascimento dela, fui obrigada a me dividir em dois tipos de Juliana. Uma mãe de primeira viagem e a outra recém-diagnosticada com câncer.
Nunca vou saber explicar como isso funcionou, nem como me organizei para isso. Na verdade, não sei como faço isso até hoje. Na cartilha da vida não existe explicação de como ser paciente com câncer, da mesma forma que não existe regra nem equação exata de como ser uma boa mãe... quem dirá tudo isso junto!

Acho que isso deve ser mais um “sintoma de mãe”. Não importa a dificuldade, não importa se temos ou não conhecimento da situação. A gente simplesmente arregaça as mangas e seguimos em frente. Claro, com uma pitada extra de coragem e fé que só as mães recebem ao dar à luz.

Um beijo carinhoso a todos! 

Juliana Moro

Vice-Presidente do Instituto Melanoma Brasil